Thursday, January 8, 2009

acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três outros rostos que amei.
num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
qual tarde de maio
como um trunfo escondido na manga
carrego comigo tua última carta
cortada
uma cartada
não, amor, isso não é literatura.



Ana Cristina César



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Wednesday, January 7, 2009

Como num espelho onde te procuras
vês na água as palavras
que cabem no silêncio




maria sousa



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Tuesday, January 6, 2009

Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...




Al Berto




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Monday, January 5, 2009

O piano de cauda das estrelas
tem raízes na música dos lagos.
Amar é a arte da música
num corpo moribundo. Morre-se
de um pequeno átomo de ansiedade e isso
é uma regra do jogo; só assim a morte andará descalça como
uma violeta pelos jardins da noite; só assim
nos restará a morte antes do fim.
O fruto do coração é pouco, semelhante à mágoa.
Olhar é uma página. Percorre-a a consciência de quando
não acontece nada. É preciso duvidar semeando limites
para ser-se ilimitado -- eis quando será legítimo enganar
os deuses. Maior que a montanha é
a gota de orvalho; maior que o sol é o movimento
da sombra. Os pássaros
não acontecem: vivem-se. É tarde
para inscrever o discurso da alegria
nas estruturas do ar?



Joaquim Pessoa



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Sunday, January 4, 2009

Na lista dos teus fins venho no fim
de uma página nunca publicada,
e é justo que assim seja.
Embora saiba
mexer palavras, e doer de frente,
e tenha esse talento conhecido
de acordar de manhã, dormir à noite,
e ser, o dia todo, como gente,
nunca curei, como previa, a lepra,
nem decifrei o delicado enigma
da letra morta que nos antecede.
Por muito te querer, talvez pudesses
dar-me um lugar qualquer mais adiante,
despir-te de pudor por um instante
e deixá-lo cobrir-me como um manto.




António Franco Alexandre



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Thursday, January 1, 2009

Quando se perde alguém nunca é
exactamente a mesma pessoa que regressa.




Sharon Olds



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Tuesday, December 30, 2008

BONHANHO
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Post bonito é para ser repetido
- Fui me confessar ao mar.
- E o que ele disse?
- Nada.



Lygia Fagundes Telles




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Sunday, December 28, 2008

Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.




Filipa Leal




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Saturday, December 27, 2008

Thursday, December 25, 2008

Com palavras usadas,
gastas pelo tempo e pelo hábito,
cujo último tremor já não se sente.
Com palavras, como sonhos, queimadas pela vida,
nesta noite de chuva falo contigo,
tento falar pelo menos, ligeiramente ébrio,
construo cada sílaba no país de jamais.
E sinto essa repentina lucidez
com a qual, de súbito, quebramos a rotina de sermos e de conhecermo-nos,
sinto, digo, essa estranha sensação, distante e esvaída,
do whisky, da noite e do silêncio,
do entusiasmado desespero com que aceitamos a derrota,
dessa vertigem, às vezes, só às vezes, tua e minha,
em que morremos a sorrir com os olhos abertos.
Sinto o pouco que é um beijo no fundo da tua língua,
ou os teus olhos a olharem-se nos meus,
ou as nossas mão unidas no ar,
a percorrer um museu de admitidos fracassos.
Desfilam, batalhão desolado de fantasmas,
nomes e nomes com eco diferente.
Pretendemos, com abolidos rostos, prazos caducados, cidades impossíveis,
responder a uma velha pergunta
cuja resposta só a morte conhece já.
Anos e anos, voluntários exílios de seres e países.,
os filhos que não quis ter, os que tu tiveste,
o tremor do desejo que guardas ainda na tua pele,
o meu repetido navegar de cama em cama
reunem-se e afirmam o seu destino
diante da cerimónia do amanhecer.
E sabemos tudo e está escrito nos teus olhos,
hoje, contudo, neste dia com sol-tão raro em Bogotá-
de finais de julho, de um ano qualquer,
proponho-te o meu amor, sei que aceitarás,
com palavras usadas proponho-te mentirmo-nos.
Já passada a noite, quietos diante do espelho,
enquanto faço a barba e tu pintas os lábios,
proponho-te o meu amor, dizer que nos amamos.
Dizer-e são apenas exemplos-"hoje existe a vida para nós"
ou "tu não morrerás nunca"
ou, talvez, "ainda há noites e noites que esperam
os nossos braços, esse especial calor de dormirmos abraçados".
Esquecendo, tentando esquecer o nosso passado,
ignorando o futuro sem dúvida inalcançável,
com palavras gastas dizer e repetir
-é outro exemplo-"obrigado meu amor por teres existido".
Ao menos por um momento-não incomodamos ninguém-
com palavras usadas mentirmo-nos e mentirmo-nos,
mentirmo-nos contra o tempo, desprezar a sua vitória.

Envio:
Deixo-te este poema
confuso, absurdo, comprido,
para que tu o estendas como um lenço velho
aos pés da tua cama, para que tu o tenhas,
e um dia o encontres, confuso, absurdo, comprido,
num dia como este-quando já não estivermos-,
e recordes, debaixo do duche,
que uma vez te amei-mentiras e mentiras-,
que uma vez te amei-era um dia de julho-,
com palavras usadas como um disco riscado,
que recordes, meu amor, esta letra de tango.



Juan Luis Panero



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A todos um Bom Natal
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Wednesday, December 24, 2008

gosto tanto desta canção!
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Sunday, December 21, 2008

Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.




Samuel Beckett




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Friday, December 19, 2008

é bom ser a lebre das alianças duma grande amiga (e dj também)
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Thursday, December 18, 2008

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.





Adélia Prado




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Wednesday, December 17, 2008

Que quer dizer a mágoa sempre que se deixa
fazer sentir, quando se afasta depois
de ocupar os únicos sítios? O que quero
dizer fica menos veloz. A evitar o azul branco
do céu sobre mim, a visitar esta terra só
de inverno. Seria inútil começar agora
uma conversa mais explícita, talvez
sobre o ritmo exigente da cidade em que estás
ou sobre a actividade quase perfeita das crianças
em redor. Prefiro calar-me, sentir o vento
que vem do mar, rir um pouco tropeçando
na madeira corroída.
De pouco serve escutar assim as vozes
já tão cansadas, antes a cuidadosa escolha
das tábuas a pôr na casa vazia. Depois
falaste-me de um eco, de um barco inclinando-se,
da casa que não tens.
Esgota-se o que mais falta. Que vamos
dizer? Está bem amo-te. E ao fogo
acabando na cinza, à manhã que não existe.



Helder Moura Pereira




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Tuesday, December 16, 2008

há prendas que nos iluminam completamente os dias. esta m'nina musicou este meu poema

como pretexto para amputar sonos
que venha o Outono!

encerramos a casa, é domingo, e ficamos
a ouvir os cães a ladrar ao longe

próximo do amanhecer
chama-se nuvem a uma metáfora
onde os pássaros vigiam os intervalos das arvores

será o Verão a epígrafe de dias esquecidos?



maria sousa



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Monday, December 15, 2008

Toda a manhã, eu sentada a pensar em ti,
as Monarcas têm passado. Sete andares acima,
à esquerda do rio, dirigem-se para
sul, as suas asas vermelho-escuras como
as tuas mãos de talhante, as veias
estampadas das suas asas como as tuas cicatrizes.
Mal conseguia sentir as tuas palmas rudes enormes
sobre mim, tão leve era o teu toque,
algo delicado, gretado, que arranhava tal pata de insecto
sobre o meu peito. Nunca ninguém
me tocara antes. Nem sequer sabia
abrir as pernas, mas senti as tuas coxas,
com uma penugem de ouro rubro,
abrindo-se
entre as minhas pernas como um
par de asas.
A impressão do meu sangue em cavilha sobre as tuas coxas –
uma criatura alada presa ali por alfinetes –
e depois partiste, como havias de partir
uma e outra vez, as borboletas deslocando-se
imensas pela minha janela, flutuando
para sul para se transformarem, atravessando
fronteiras pela noite, a sua nuvem difusa
vermelha de sangue, o meu corpo sob o teu,
a beleza e o silêncio das grandes migrações.



Sharon Olds



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Sunday, December 14, 2008

Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.




Carlos Alberto Machado




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