Ana Marques Gastão
Monday, June 16, 2008
A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.
Ana Marques Gastão
Ana Marques Gastão
Sunday, June 15, 2008
E
de súbito reparas que tens uma hora para ti.
Debates-te com o sofá sentindo os
ossos fremir
(cinquenta e cinco minutos) para entregar
ao que mais gostas. Uma hora só para ti nem
é nada habitual
(quarenta e sete minutos) sem o jugo das perguntas
privada epifania de veres chegar
o teu momento. Felizmente que esta tarde
tens uma hora para ti
(trinta e nove minutos) delida no teu silêncio e
nada fala mais alto que
o silêncio das mulheres. Repara que é a hora inteira
(vinte e quatro minutos)
a sala sem o colóquio das vozes à refeição
(cinco ou dez minutos) até à palavra ballet onde
a escolhes meia minha
meia tua meia nua.
João Luís Barreto Guimarães
de súbito reparas que tens uma hora para ti.
Debates-te com o sofá sentindo os
ossos fremir
(cinquenta e cinco minutos) para entregar
ao que mais gostas. Uma hora só para ti nem
é nada habitual
(quarenta e sete minutos) sem o jugo das perguntas
privada epifania de veres chegar
o teu momento. Felizmente que esta tarde
tens uma hora para ti
(trinta e nove minutos) delida no teu silêncio e
nada fala mais alto que
o silêncio das mulheres. Repara que é a hora inteira
(vinte e quatro minutos)
a sala sem o colóquio das vozes à refeição
(cinco ou dez minutos) até à palavra ballet onde
a escolhes meia minha
meia tua meia nua.
João Luís Barreto Guimarães
Saturday, June 14, 2008
Wednesday, June 11, 2008
Apesar dos avisos, das cautelas, dos caldos de galinha, perdi-te
numa grande superfície em domingo de bola na luz. Ia comprar-te
roupa, aos jornais, ver se o café já chegara, e de repente, enquanto
olhava a montra engalanada de chocolates, estava só o teu sítio.
Foste no turbilhão da multidão ululante com uma bandeira na mão
gritar por portugal, sentei-me num banco a ver televisões
e na esperança de te ver quando filmassem as claques. Passou a hora
e meia mais o intervalo -nem preciso dizer que nunca mais te vi.
Agora investigo até ao mínimo detalhe o conceito de amor
nos vários pontos da terra e sei que hei-de encontrar um
que me corresponda. Pois o mundo é uma bola chutada num anúncio
da coca-cola, às vezes o amor só se vê quando desaparece,
quando comíamos conquilhas e bebíamos vinho verde chamava-se
amizade. Mas eu ainda só vou no ocidente mais ocidental.
De olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois
pela raiva da estupidez de chorar, cravo os olhos em mim mesmo
a sentir bater o coração ao centro, se ao menos à hora da morte
se decifrasse o enigma. Mas nem isso se sabe ao certo, é essa a dor
criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível.
Porque mostrar a dor sistemática, onde pairam nuvens negras,
não é mostrar a tua beleza, nem a minha, ou a da escrita. Talvez
se comprasse bilhete e me misturasse com todos quem sabe se
não te encontraria, a comer nougat e a rir, achando normal eu ali.
Não, nunca mais te vi, por vezes conto um conto para fingir
que tive um sonho, sem vergonha a tremedeira cresce em pernas
e em braços, aquele banco para mim ficou um lugar sagrado e volto
aos domingos sempre, pode ser que te encontre na igreja dos costumes.
Helder Moura Pereira
numa grande superfície em domingo de bola na luz. Ia comprar-te
roupa, aos jornais, ver se o café já chegara, e de repente, enquanto
olhava a montra engalanada de chocolates, estava só o teu sítio.
Foste no turbilhão da multidão ululante com uma bandeira na mão
gritar por portugal, sentei-me num banco a ver televisões
e na esperança de te ver quando filmassem as claques. Passou a hora
e meia mais o intervalo -nem preciso dizer que nunca mais te vi.
Agora investigo até ao mínimo detalhe o conceito de amor
nos vários pontos da terra e sei que hei-de encontrar um
que me corresponda. Pois o mundo é uma bola chutada num anúncio
da coca-cola, às vezes o amor só se vê quando desaparece,
quando comíamos conquilhas e bebíamos vinho verde chamava-se
amizade. Mas eu ainda só vou no ocidente mais ocidental.
De olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois
pela raiva da estupidez de chorar, cravo os olhos em mim mesmo
a sentir bater o coração ao centro, se ao menos à hora da morte
se decifrasse o enigma. Mas nem isso se sabe ao certo, é essa a dor
criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível.
Porque mostrar a dor sistemática, onde pairam nuvens negras,
não é mostrar a tua beleza, nem a minha, ou a da escrita. Talvez
se comprasse bilhete e me misturasse com todos quem sabe se
não te encontraria, a comer nougat e a rir, achando normal eu ali.
Não, nunca mais te vi, por vezes conto um conto para fingir
que tive um sonho, sem vergonha a tremedeira cresce em pernas
e em braços, aquele banco para mim ficou um lugar sagrado e volto
aos domingos sempre, pode ser que te encontre na igreja dos costumes.
Helder Moura Pereira
Tuesday, June 10, 2008
Sonhei-te lentamente,
em plena consciência do disfarce.
Sabia-te irreal,
mas o sonho restava devagar.
Com pormenores tão lentos
que o tempo me sobrava de pensar.
Sentei-me ao pé de ti,
junto ao meu sonho, e pude ler indícios,
os símbolos que queria
estavam lá. Sonhei-te porque sim:
a confusão existe no real.
Ana Luísa Amaral
em plena consciência do disfarce.
Sabia-te irreal,
mas o sonho restava devagar.
Com pormenores tão lentos
que o tempo me sobrava de pensar.
Sentei-me ao pé de ti,
junto ao meu sonho, e pude ler indícios,
os símbolos que queria
estavam lá. Sonhei-te porque sim:
a confusão existe no real.
Ana Luísa Amaral
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