Wednesday, August 20, 2008

quando as memórias estiverem frias
por falta de vontade de fugir ao vazio

como quando fechas os olhos com força
e não consegues encontrar respostas

as imagens são pontos mal definidos
pelo cigarro aceso

quando as janelas
nos devolvem o peso da solidão

talvez seja tarde para pensar em regressos



maria sousa




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Tuesday, August 19, 2008

Aos poucos um corpo, como diz o outro,
vai ficando sozinho, bate com as portas,
recua e recua. Quando dá por isso,
já não sabe dançar, conta as estações
pela volta do correio. Assim se começa
a olhar para trás, por cima do ombro,
pegando nas coisas pelo lado mais fraco.
Pagamos o preço de querer dissecar,
fibra por fibra, em prol da ciência,
o músculo baixo, descoordenado,
a que chamamos ai coração ai.



José Miguel Silva



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Monday, August 18, 2008

Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.




Luís Quintais



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Sunday, August 17, 2008

O momento mais sensato para deter o mar é quando o mar já partiu



Emily Dickinson



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Thursday, July 31, 2008

we're all going on a summer holiday
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ainda se aceitam sugestões de mp3 e livrinhos para férias

Tuesday, July 29, 2008

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade. Mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.



Filipa Leal



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Monday, July 28, 2008

As pedras começam a cair,
desmoronam o lugar em que assentava o coração,
com a idade a desfazer-se sem que possas acudir
a tua própria sombra soterrada
e uma última lembrança antes
de susteres a respiração.

Pores-te assim no silêncio
requer levitação, pureza, lábios de névoa.

Atravessas a água baixíssima
e as imagens começam a rodar nos dedos.
Levas as mãos à cara, procuras uma linha,
um traço antigo gravado pelo fogo.
Páras diante do total esquecimento.

É hora de bordar um outro movimento no espaço.
Levas a agulha à pele virgem e escreves
- Inicias o segredo.




Vasco Gato



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