O DIÁRIO DÓCIL É MUITO BOM
Friday, June 30, 2006
Thursday, June 29, 2006
mais uma tradução caseira da lebre
Isto foi um erro,
estes braços e pernas
que já não funcionam
agora está partido
sem espaço para desculpas.
A terra não conforta,
Apenas cobre
Se tiveres a decência de ficar quieto
O sol não perdoa,
Olha e continua a andar.
A noite infiltra-se em nós
através dos acidentes que
provocámos um ao outro
da próxima vez que cometermos
amor, devemos
escolher primeiro o que matar.
Margaret Atwood
Isto foi um erro,
estes braços e pernas
que já não funcionam
agora está partido
sem espaço para desculpas.
A terra não conforta,
Apenas cobre
Se tiveres a decência de ficar quieto
O sol não perdoa,
Olha e continua a andar.
A noite infiltra-se em nós
através dos acidentes que
provocámos um ao outro
da próxima vez que cometermos
amor, devemos
escolher primeiro o que matar.
Margaret Atwood
Tuesday, June 27, 2006
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
Ana Cristina César
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
Ana Cristina César
Monday, June 26, 2006
A vida dum peixe vermelho
A Sara tinha um peixinho vermelho dentro duma bacia. O peixinho vermelho chamava-se Noé e estava dentro da bacia a nadar. Uma vez a Sara meteu-se dentro da bacia e foi a nadar atrás do peixinho. No fundo da bacia havia uma porta. O peixinho vermelho morava lá e tinha lá dentro uma casa, com uma sala com armários e com cadeiras e uma mesa.
O peixinho sentava-se à mesa a escrever, andava a escrever um livro. O título do livro era: “A vida dum peixe.” A Sara naquela altura ainda era pequena e não sabia ler e por isso andava muito aborrecida e cheia de curiosidade de saber o que estava lá escrito.
Todos os dias ia lá com o Noé para dentro da casa dele e Noé deixava-a ficar sentada numa cadeira a olhar para ele, a vê-lo escrever o livro.
Então a Sara teve uma idéia: quando podia ia à casa do Noé, sentava-se à mesa com um papel e copiava muito bem tudo o que estava escrito no livro. Depois guardava muito bem o papel para, quando fosse grande e já soubesse ler, ler o livro da vida do peixinho. Comprou uma caneta, e umas letras eram grandes e outras pequenas e havia letras redondas como bolas e outras letras compridas.
A Sara copiava tudo muito bem copiado e o Noé todos os dias punha mais coisas no livro.
Quando a Sara aprendeu a ler, foi a correr buscar os papéis. Mas nos papéis só estavam escritos gatafunhos e riscos, porque o peixinho vermelho afinal não sabia escrever e fazia aquilo para a Sara julgar que ele era muito sábio e andava a escrever um livro sobre a vida dele e para Sara ficar com muita admiração pelo peixinho e gostar muito dele.
A Sara, primeiro, ficou triste, porque estava cheia de curiosidade. Depois não disse nada ao Noé que sabia ler, e todos os dias ia com ele para a casa dele e ele escrevia coisas no livro para a Sara olhar para ele. E Sara ficava muito admirada, para o Noé ficar contente porque a Sara gostava muito daquele peixinho vermelho.
Um dia, aquele peixinho vermelho morreu e a Sara ficou muito triste e meteu o peixinho vermelho numa caixa com desenhos e enterrou-o no quintal. Depois a Sara plantou uma flor no lugar onde enterrou o peixinho e deitou-lhe a água da bacia.
A flor cresceu, era muito bonita e vermelha e a Sara pôs-lhe o nome de Alice Lidell.
Manuel António Pina
A Sara tinha um peixinho vermelho dentro duma bacia. O peixinho vermelho chamava-se Noé e estava dentro da bacia a nadar. Uma vez a Sara meteu-se dentro da bacia e foi a nadar atrás do peixinho. No fundo da bacia havia uma porta. O peixinho vermelho morava lá e tinha lá dentro uma casa, com uma sala com armários e com cadeiras e uma mesa.
O peixinho sentava-se à mesa a escrever, andava a escrever um livro. O título do livro era: “A vida dum peixe.” A Sara naquela altura ainda era pequena e não sabia ler e por isso andava muito aborrecida e cheia de curiosidade de saber o que estava lá escrito.
Todos os dias ia lá com o Noé para dentro da casa dele e Noé deixava-a ficar sentada numa cadeira a olhar para ele, a vê-lo escrever o livro.
Então a Sara teve uma idéia: quando podia ia à casa do Noé, sentava-se à mesa com um papel e copiava muito bem tudo o que estava escrito no livro. Depois guardava muito bem o papel para, quando fosse grande e já soubesse ler, ler o livro da vida do peixinho. Comprou uma caneta, e umas letras eram grandes e outras pequenas e havia letras redondas como bolas e outras letras compridas.
A Sara copiava tudo muito bem copiado e o Noé todos os dias punha mais coisas no livro.
Quando a Sara aprendeu a ler, foi a correr buscar os papéis. Mas nos papéis só estavam escritos gatafunhos e riscos, porque o peixinho vermelho afinal não sabia escrever e fazia aquilo para a Sara julgar que ele era muito sábio e andava a escrever um livro sobre a vida dele e para Sara ficar com muita admiração pelo peixinho e gostar muito dele.
A Sara, primeiro, ficou triste, porque estava cheia de curiosidade. Depois não disse nada ao Noé que sabia ler, e todos os dias ia com ele para a casa dele e ele escrevia coisas no livro para a Sara olhar para ele. E Sara ficava muito admirada, para o Noé ficar contente porque a Sara gostava muito daquele peixinho vermelho.
Um dia, aquele peixinho vermelho morreu e a Sara ficou muito triste e meteu o peixinho vermelho numa caixa com desenhos e enterrou-o no quintal. Depois a Sara plantou uma flor no lugar onde enterrou o peixinho e deitou-lhe a água da bacia.
A flor cresceu, era muito bonita e vermelha e a Sara pôs-lhe o nome de Alice Lidell.
Manuel António Pina
Sunday, June 25, 2006
Cigarettes and coffee, man, that's a combination.
o vizinho do lado anda a dedicar uns posts ao Jarmusch
o vizinho do lado tem posts muito bons sem ser sobre o Jarmusch
o vizinho do lado anda a dedicar uns posts ao Jarmusch
o vizinho do lado tem posts muito bons sem ser sobre o Jarmusch
ela vigia com rosto de menina sem sono
o que da insónia é mobília gasta pelos olhos
sucessão de coisas dispostas sobre a cama
colchas brancas onde já não restam milagres
da infância sobraram fotografias
jogos onde a memória se entretém a inventar rotinas
como sombra no arredor dos olhos
em tempo de papoilas abrem-se as janelas ao vermelho
no trabalho de aprender a adormecer
Maria
o que da insónia é mobília gasta pelos olhos
sucessão de coisas dispostas sobre a cama
colchas brancas onde já não restam milagres
da infância sobraram fotografias
jogos onde a memória se entretém a inventar rotinas
como sombra no arredor dos olhos
em tempo de papoilas abrem-se as janelas ao vermelho
no trabalho de aprender a adormecer
Maria
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