—
Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
—
Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. —
E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! —
E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. —
Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? —
Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
—
Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
—
E é tudo? — De ninguém como de ti.
—
Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. —
Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
—
É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. —
Não sei
que horas são e nem quero saber.Wislawa Szymborska