mais uma tradução caseira da lebre
Portas trancadas
Para os anjos que habitam esta cidade,
Ainda que a sua forma mude constantemente,
todas as noites deixamos algumas batatas frias
e uma tigela de leite no parapeito.
Geralmente eles habitam o céu onde,
a propósito, não são permitidas lágrimas.
Eles empurram a lua à volta como
Um inhame cozido
A via láctea é a sua galinha
com os seus muitos filhos.
Quando é noite as vacas deitam-se
mas a lua, esse grande touro,
fica em pé.
No entanto, há lá um quarto trancado
com uma porta de ferro que não pode ser aberta.
Tem lá dentro todos os teus sonhos maus.
É o inferno.
Há quem diga que o diabo fecha a porta
por dentro.
Há quem diga que os anjos a trancam por fora.
As pessoas lá dentro não têm água
E não lhes é permitido tocar
Racham-se como macadame.
São mudas.
Não gritam socorro
excepto dentro
onde os seus corações estão cobertos de larvas
Eu gostaria de destrancar essa porta,
rodar a chave ferrugenta
e segurar cada caído nos meus braços
mas não posso, não posso.
Eu apenas me posso sentar aqui na terra
no meu lugar à mesa.
Anne Sexton
Parabéns a uma das pessoas mais bonitas da minha vida
"José é um nome que a gente conhece em muitas línguas:
José, Joseph, Giuseppe, Josep .
José pintou, um dia, em alguma parte do mundo, o retrato
de uma borboleta.
O papel tinha o tamanho de sua intenção.
As cores, as de seu desejo.
Pintou ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder
e galhos para descansar.
É mesmo fácil imaginar sua pintura ou faze-la, mas a
consequência não foi tão simples.
É melhor saber toda a história.
Joseph acordou com o coração cheio de domingo.
Domingo é dia em que a gente não quer nada e por isso
acontece quase tudo.
Não era domingo, mas ele se sentia em paz com o mundo.
Nesse dia ele viu o voo de uma borboleta (voo de borboleta
pode transformar qualquer dia em domingo)."
Bartolomeu Campos Queiroz (texto ligeiramente alterado)
MATÉRIA DE POESIA
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
Terreno 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstémios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjectivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo o que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo o que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação dos sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra
sem nascerem em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega ao poema,
e as andorinhas de junho.
Manoel de Barros
Tradução caseira da lebre
Coisas que despertam uma memória querida do passado
Malva seca. Objectos usados na Festa das Bonecas. Descobrir um pedaço de tecido violeta escuro ou cor de uva no meio das páginas de um caderno.
Chove e estamos aborrecidos. Para passar o tempo revemos papéis velhos e descobrimos as cartas de um homem por quem já estivemos apaixonadas.
O leque de papel do ano passado. Uma noite de luar.Sei Shonagon
voltei e em modo muito makura no soshi
Use my body like the pages of a book. Of your book.
O computador da lebre precisa de obras urgentemente, anda perdido entre sinfonias de apitos e zumbidos e só arranca quando lhe dá na real gana.Por isso este blog fica parado durante os próximos dias.(espero voltar para a próxima semana)
"Cai hoje uma destas chuvas oblíquas que enfeitam os vidros com as suas diagonais irregulares, e ponteadas, e longe, à distância, ora a direito ora de través, dão corpo ao ar.
Cai uma chuva bonita, e sente-se o vento. Estes fenómenos que podem ser tristes e dar mau estar, como se está dentro de casa apresentam-se graciosos e animam a paisagem; impõem-nos a sua familiaridade."Irene Lisboa