Monday, January 28, 2008

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.



José Miguel Silva



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7 comments:

nuno said...

perfeito, lebre,

'e levamos a noite a dizer oxalá
como se a palavra praticasse anestesia'

menina limão said...

(...)

nils said...

Aceno-te do outro lado da sebe... jardineiros! Muito bom!

saudosista do futuro said...

que maravilha.
PALAVRA E TUDO.
_______________

___________________
a correria dos dias
às vezes demasiado
isto e aquilo.
______________

bruno said...

muito bom.

angela said...

e a imagem...

fiquei com frio.
imaginei as costas ao vento
e os botões desencontrados, perdidos
e sem vontade de aquecer as costas.

lebredoarrozal said...

:)
o poema é fabuloso, ando encantada com a poesia do José Miguel Silva, é muito certeira.


sim angela, tb senti o frio e odesalento quando a encontrei.