Wednesday, September 3, 2008

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.



Ulla Hahn



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6 comments:

L. said...

este verão, sentado na imobilidade que queria para o tempo.

marta said...

há coisas que acontecem em sincronia. entrei aqui e deparei-me com as palavras que procuro há dias para ilustrar a minha vida recente. e com um nó na garganta encontro este poema que é tão dolorosamente este meu verão...

Inês Leitão said...

Gostava muito de ser ela, ali na piscina.

ana salomé said...

incrível, lebre.

Frioleiras said...

este verão

verde............

lebredoarrozal said...

eu gosto mesmo, mesmo muito deste poema:)